sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tratamento Espiritual para os Abikús


Um babalawo, especialista no trato com, indica o ebó que irá garantir o nascimento com vida do próximo filho da mulher em questão, mantendo-o vivo, retendo-o sobre a Terra e rompendo, definitivamente, sua ligação com o Orun.

Iniciado o tratamento espiritual, a mulher tem o corpo, principalmente o abdome, esfregado com folhas sagradas, toma banhos e chás das mesmas folhas e passa a cuidar de uma entidade feminina chamada Egbe Eleriko, que atormenta as crianças durante o sono, produzindo marcas e ferimentos superficiais em seus corpos.

Um assentamento de Egbe Eleriko é feito em sua casa, onde, anualmente, serão oferecidos sacrifícios de animais, com toques, cânticos e danças ritualística. Esta entidade tem que ser cultuada permanentemente e, a cada cinco dias, cabaças com oferendas lhe é oferecida num rio.
Dentro destas cabaças são colocados ovos, obís, favas bejerekun, akasá, bananas, doces, inhame, acarajés, cana-de-açúcar e penas ekodidé, tudo em número de seis. A cabaça é fechada e, depois de colocada dentro de um saco, é entregue nas águas de um rio, acompanhada das seguintes rezas:

1 - Egbe, afável mãe, apoio suficiente para os que a cultuam.
Aquela que usa roupas de veludo e que, elegante, come cana-de-açúcar nos caminhos de Oyó.
Aquela que gasta muito dinheiro comprando azeite de dendê.
A que está sempre fresca e que possui muito óleo, que utiliza para realizar milagres.
Aquela que tem dinheiro para luxo, a linda.
A que sucumbe ao seu marido, como a uma pesada clava de ferro.
Aquela que possui dinheiro para comprar, mesmo as coisas mais caras.

2 - Por favor, permita-me usar um ojá.
Por favor, permita-me possuir um ojá.
Um ojá é o que usamos para prender uma criança às nossas costas.
Eu posso, a cada cinco dias, cultuar Egbe.
Mãe Egbe, que mora entre as plantas.
Dê-me meus próprios filhos.
Eu posso cultuá-la a cada cinco dias.

Apesar de atormentar as crianças, Egbe Eleriku tem o poder de dar filhos e fortuna às mulheres que a cultuam e nem todas as crianças são por ela perseguidas. Um oriki de Egbe Eleriko, recolhido em Ibadan, demonstra a ligação acima referida, e serve como uma súplica feita pelas mulheres que, sob sua proteção, desejam filhos sadios e livres da praga.

Mãe proteja-me e eu irei ao rio.
Não permita a abíku entrar em minha casa.
Mãe proteja-me, eu irei ao rio.
Não permita que uma criança maldita venha à minha casa.
Mãe proteja-me, eu irei ao rio.
Não permita que uma criança estúpida siga-me até minha casa.
Olugbon morreu e deixou filhos no mundo.
Aresá morreu e deixou descendência.
Olukoyi morreu e deixou descendência.
Não permita que eu morra sem ter tido filhos.
Eu não posso morrer de mãos vazias, sem descendentes
.

Um procedimento muito usado para constatar a presença do Abíkú, no caso de falecimento de uma criança de menos de nove anos, faz parte de um ritual durante o qual, o cadáver do pequenino, depois de lavado com infusões de ervas sagradas, é marcado com cortes superficiais em diversas partes do corpo, feitos com afiadas lâminas de aço. Através destas escarificações são introduzidos alguns tipos de pós obtidos da moagem de elementos naturais, considerados mágicos. Cortes mais profundos são feitos no alto da cabeça e o lóbo de uma das orelhas é extirpado. Um guizo de ferro fornecido pelo Egbe Obá é atado ao tornozelo do cadáver que, só então, receberá sepultura.

A próxima criança gerada pela mãe do falecido, se apresentar uma das marcas feitas no cadáver de seu irmão, se possuir lóbo duplo ou bipartido numa das orelhas, ou ainda, se possuir um sexto dedo num dos pés ou mãos, estará caracterizando a presença do Abíkú, devendo ser imediatamente submetida aos rituais que lhe preservarão a vida e que, da mesma forma que os procedimentos relativos ao cadáver de seu falecido irmão, só podem ser ministrados por um sacerdote do culto de Ifá, Babalawo consagrado e especializado neste tipo de ritual.

Assegurado o nascimento da criança, e tendo esta efetivamente nascida com vida, deverá então ser submetida aos rituais propiciatórios, para que o espírito permaneça naquele corpo, com a garantia de que será aquela a sua última encarnação.

Um ebó será preparado, com um pedaço de tronco de bananeira vestido com roupas e gorros tingidos de osun e bordados de búzios e guizos. Pendura-se tudo nos galhos de uma árvore e, no chão, arria-se, ao redor do tronco, pratos ou alguidares de barro contendo inhame, acarajé, ekurú, akasá, canjica, doces, frutas, bebidas, folhas ritualísticas, tudo bem coberto com mel de abelhas. Uma cabra, um pombo e um galo são sacrificados e arriados no local, onde permanecerão por algum tempo. Depois, embrulham-se os corpos dos animais sacrificados num pano branco, cobre-se com bastante pó de efun, amarra-se e enterra-se nas margens de um rio, ou despacha-se nas águas, de acordo com a orientação obtida através do oráculo.

Na confecção do ebó, não são utilizadas rezas ou cânticos, sendo exigida, isto sim, a presença dos pais do Abíkú, que deverão saber o objetivo do ebó. As mesmas folhas oferecidas no sacrifício serão utilizadas em banhos e na confecção de pós mágicos que serão esfregados nas incisões do Abíkú e na preparação do amuleto ondê, que deverá acompanhá-lo pelo resto da vida. As folhas têm que ser consagradas antes de sua utilização e, para isso, possuem ofós específicos, que ressaltam suas qualidades e funções.

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