segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sociedade Egunguns



Os negros iorubanos originários da Nigéria trouxeram para o Brasil o culto dos seus ancestrais chamados Eguns ou Egunguns. Em Itaparica (BA), duas sociedades perpetuam essa tradição religiosa. Esses iorubanos não apenas adoram e cultuam suas divindades, mas também seus ancestrais, principalmente os masculinos.

A morte não é o ponto final da vida para o iorubano, pois ele acredita na reencarnação (àtúnwa), a pessoa renasce no mesmo seio familiar ao qual pertencia revivendo em um dos seus descendentes.

Orô é uma divindade sendo considerado o representante geral dos antepassados masculinos e cultuado somente por homens. Tanto Iami quanto Orô são manifestações de culto aos mortos. São invisíveis e representam à coletividade, mas o poder de Iami é maior e, portanto, mais controlado, inclusive pela Sociedade Orô.

FINALIDADE DA SOCIEDADE EGUNGUN
As "Sociedades Egungum" têm como finalidade celebrar ritos a homens que foram figuras destacadas em suas sociedades quando vivos, para que eles continuem presentes entre seus descendentes de forma privilegiada. Esses mortos surgem de forma visível, mas camuflada, a verdadeira resposta religiosa da vida pós-morte, denominada Egum ou Egungum.

Somente os mortos do sexo masculino fazem aparições, pois só os homens possuem a individualidade, às mulheres é negado este privilégio, assim como o de participar diretamente do culto.

No Brasil existem duas sociedades de Egungum, cujo tronco comum remonta ao tempo da escravatura: Ilê Agboulá, a mais antiga, em Ponta de Areia, e uma mais recente e ramificação da primeira, o Ilê Oyá, ambas em Itaparica, Bahia.

O Egum é a morte que volta à terra em forma espiritual e visível aos olhos dos vivos. Ele "nasce" através de ritos que sua comunidade elabora e pelas mãos dos Ojé (sacerdotes) munidos de um instrumento invocatório, um bastão chamado Ixã, que quando tocado na terra por três vezes e acompanhado de palavras e gestos rituais, faz com que a "morte se torne vida" e o Egungum ancestral individualizado está de novo "vivo”.

A aparição dos Eguns é cercada de total mistério, diferente do culto aos Orixás. 

APRESENTAÇÃO DO EGUN
Apresenta-se com uma forma corporal humana totalmente recoberta por uma roupa de tiras multicoloridas, que caem da parte superior da cabeça formando uma grande massa de panos, da qual não se vê nenhum vestígio do que é ou de quem está sob a roupa. Fala com uma voz gutural inumana, rouca, ou às vezes aguda metálica e estridente - característica de Egum, chamada de séègí ou sé, e que está relacionada com a voz do macaco marrom, chamado Ijimerê na Nigéria.

As tradições religiosas dizem que sob a roupa está somente a energia do ancestral; outras correntes já afirmam estar sob os panos algum mariwo (iniciado no culto de Egum) sob transe mediúnico. Pelo sim ou pelo não, Egum está entre os vivos, e não se pode negar sua presença.

A ROUPA DO EGUN

A roupa do Egum - chamada de Eku na Nigéria ou Opá na Bahia - é altamente sacra ou sacrossanta e por dogma, nenhum humano pode tocá-la.

O Egum é a materialização da morte sob as tiras de pano, e o contato, ainda que um simples esbarrão nessas tiras seja prejudicial e mesmo os mais qualificados sacerdotes - como os Ojé Atokun, que invocam, guiam e zelam por um ou mais Eguns - desempenham todas essas atribuições substituindo as mãos pelo Ixã.

Os Egum-Agbá (ancião), também chamados de Babá-Egum (pai), são Eguns que já tiveram os seus ritos completos e permitem, por isso, que suas roupas sejam mais completas e suas vozes sejam liberadas para que eles possam conversar com os vivos.

Os Apaaraká são Eguns mudos e suas roupas são as mais simples: não têm tiras e parece um quadro de pano com duas telas, uma na frente e outra atrás. Esses Eguns ainda estão em processo de elaboração para alcançar o status de Babá; são traquinos e imprevisíveis, assustam e causam terror ao povo.

O Eku dos Babás é dividido em três partes:
1. O Abalá, que é uma armação quadrada ou redonda, como se fosse um chapéu que cobre totalmente a extremidade superior do Babá e da qual caem várias tiras de panos coloridas, formando uma espécie de franjas ao seu redor;

2. O Kafô, que uma túnica de mangas que acabam em luvas e pernas que acaba igualmente em sapatos;

3. O Banté, que é uma tira de pano especial presa no kafô e individualmente decorada e que identifica o Babá. O banté, que foi previamente preparado e impregnado de axé (força, poder, energia transmissível e acumulável), é usado pelo Babá quando está falando e abençoando os fiéis. Ele sacode na direção da pessoa e esta faz gestos com as mãos que simulam o ato de pegar algo, no caso o axé, e incorporá-lo. Ao contrário do toque na roupa, este ato é altamente benéfico.


Na Nigéria, os Agbá-Egum portam o mesmo tipo de roupa, mas com alguns apetrechos adicionais: uns usam sobre o Alabá máscaras esculpidas em madeira chamadas Erê Egungum; outros, entre os Alabá e o Kafô, usam peles de animais. Alguns Babás carregam na mão o Opá Iku e às vezes, o Ixã. Nestes casos, a ira dos Babás é representada por esses instrumentos litúrgicos.

virligiams@gmail.com

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