sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Lenda relacionada aos Abikús


Segundo a lenda, os Abikús vieram à terra, pela primeira vez, na localidade denominada Awaiye, trazidos por Alawaiye, rei de Awaiye e seu chefe no Orun. O grupo era formado por 280 espíritos que, parando no portal do céu, fizeram diversos pactos, condicionando seu retorno a diferentes situações, que variavam de acordo com a escolha de cada um. Desta forma, alguns estabeleceram a data de sua morte para depois que vissem, pela primeira vez, o rosto de suas mães; outros, para quando completassem sete dias de nascidos; outros ainda, para quando começassem a andar; alguns, para quando ganhassem um irmão mais novo; outros, para quando se casassem ou construíssem uma casa. Aqueles que nascessem comprometiam-se a não aceitar o amor de seus pais e, todos os presentes e agrados recebidos, seriam inúteis para retê-los na Terra, ao passo que alguns, se comprometeram, simplesmente, a provocarem seus próprios abortos, não chegando sequer a nascer. Estabeleceram ainda que, se seus pais adivinhassem seus rituais, roupas e oferendas, e, se em tempo hábil os oferecessem, concordariam em permanecer neste mundo.

Determinaram ainda entre si um ritual no qual, roupas, chapéus e turbantes tingidos de osun, com valor simbólico de 1.400 cawrís, deveriam ser pendurados nas árvores de um bosque especialmente consagrado para seu culto. Folhas sagradas deveriam ser friccionadas em seus corpinhos já tingidos de osun, shaworos seriam colocados em seus tornozelos, pequenas incisões seriam feitas em seus corpos, e, através delas, pós mágicos de diversas folhas, seriam inseridos como proteção. Com os mesmos pós, seriam confeccionados amuletos de couro, denominados ondê, que deveriam ser presos às suas cinturas. Alguns deles deveriam levar nos tornozelos, argolas e correntes de ferro, para evitar que fugissem para o Orun e, suas oferendas, conforme determinariam os Itan Ifá, seriam compostas de cabras, pombos, galos, doces, diversos tipos de cereais, bebidas e guizos, que deveriam ser entregues no bosque sagrado, soltas nas águas de um rio, ou enterradas em suas margens. Somente assim, concordariam em permanecer sobre a Terra.

Apesar disto, se Iyajanjasa ou Oloiko insistissem em levar alguns deles de volta para o Orun, seus corpos sem vida deveriam ser marcados com escarificações, queimaduras ou mutilações, para que seus colegas do Orun, não os reconhecendo, se negassem a aceitá-los no egbe. As mesmas marcas, reaparecendo nos corpos que tomassem para renascer, serviriam para que pudessem ser identificados e, imediatamente, submetidos aos procedimentos mágicos que fariam com que prolongassem suas vidas.

Segundo as tradições, o Ipori ao atingir elevado estágio de evolução, costuma reunir-se em grupos, aguardando em copas de determinadas árvores consideradas sagradas, situadas em trilhas existentes em alguns bosques. A passagem de uma mulher de "corpo aberto", ou seja, em fase de menstruação, é por ele esperada para que, através dessa "abertura", possa estabelecer-se em seu interior, aguardando ali, que ocorra a fecundação, quando então, aloja-se no embrião, dando início a uma nova encarnação que poderá ser interrompida antes do total desenvolvimento do feto, ou num período de nove anos após o nascimento, conforme seja o seu plano de mais rapidamente processar sua evolução.

A ocorrência de abortos sucessivos, ou a morte dos filhos ainda pequenos, configuram-se como sintomas da presença de um Abíkú e, contatada essa presença, a mulher afetada deve submeter-se a um complexo tratamento espiritual, tendo que reunir-se a um grupo denominado Egbe Obá, onde é praticado um culto específico a Abíkú.

Como parte integrante do Egbe Obá, a mulher passa por uma série de procedimentos ritualísticos que visam garantir o nascimento de seu próximo filho, não por intermédio da expulsão do Abíkú alojado em seu corpo, mas através de sua concordância do mesmo em nascer e continuar vivendo no corpo em gestação, por um período correspondente à média normal de vida humana.

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