terça-feira, 4 de julho de 2017

Lamparinas para os Orixás

As Lamparinas dos Orixás eram usadas na antiguidade como uma forma eficaz de agradar aos Orixás. 
Existem hoje, de forma bastante imperceptível, nas mais tradicionais casas de Umbanda. As lamparinas são sim, consideradas como adimus.  
Espero estar contribuindo mais um pouco, na substituição do sacrifício animal de forma desregrada e abusiva como vem sendo praticado por sacerdotes que, infelizmente, não conhecem o verdadeiro sentido nem o momento em que tais sacrifícios tornam-se insubstituíveis.


Lamparina para Egum:
Uma panela média de barro, 09 pimentas da costa, um copo com água da chuva, um copo com água de poço, água de rio, 03 colheres de mel de abelha, 03 colheres de melado de cana, 03 colheres de azeite de dendê, uma pitada de pó de peixe defumado, 09 grãos de milho torrada, uma lata de azeite de oliva. Misture todos os ingredientes dentro de uma panela de barro deixando o azeite de oliva para o fim. Colocar 09 mechas e acender para Egum. Depois de 09 dias, despachar no cemitério pedindo a proteção de Egum.

Lamparina para Exu:
Dentro de uma cabaça bem limpa, coloca-se: 07 roletes de cana, milho torrado, 03 moedas, azeite de amêndoas, azeite de dendê, pó de preá defumado, aguardente de cana e azeite de oliva. Arruma-se tudo dentro da cabaça, acende uma mecha e deixa queimar por 07 dias diante de Exu. Despacha-se na encruzilhada pedindo caminhos abertos.

Lamparina para Ogun:
Uma panela de barro, 07 pimentas da costa, 07 grãos de milho torrado, pó de peixe, pó de preá defumado, 07 colheres de mel, um cálice de gin, azeite de oliva. Coloca-se tudo dentro da panela, acende uma mecha e deixa-se por 07 dias diante de Ogun. Despacha na linha de trem, pedindo que se alcance a graça que se deseja.

Lamparina para Oxóssi:
Uma panela de barro, meio copo de azeite de amêndoas, meio copo de azeite de dendê, 07 colheres de melado, um pouco de osun, 07 grãos de milho torrados, 07 colheres de suco de romã, 07 colheres de licor de anis, 07 grãos de pimenta da costa, azeite de girassol. Coloca-se os ingredientes dentro da panela, completa-se até a borda com o azeite de girassol, acende-se uma mecha e deixa-se queimar por sete dias. Despacha-se nos pés de uma amendoeira, pedindo prosperidade.

Lamparina para Logun Edé:
Dentro de uma bacia de ágata, coloca-se um pouco de água de rio. Dentro dessa água, coloca-se 05 gemas de ovos de galinha. Pega-se uma panela de barro e dentro dela coloca-se água de rio e azeite de oliva. Coloca-se a panela dentro da bacia, com as gemas, acende-se uma mecha e arreia diante de Logun Edé, deixando por 07 dias. Despacha-se na cachoeira e pede para resolver uma situação difícil.

Lamparina para Oxum:
Uma panela de barro, uma pedra imã, água de flor de laranjeira, vinho seco, água de colônia, 05 pedacinhos de orí da costa, 05 colheres (de café) de óleo de amêndoa doce, azeite de oliva. Coloca-se o imã dentro da panela e, por cima, os demais ingredientes. Completa-se com o azeite de oliva, acende-se uma mecha e deixa-se por cinco dias diante de Oxum. Despacha-se numa cachoeira.


Lamparina para Oyá:
Uma panela de barro, açúcar mascavo, açúcar cândi, 09 gemas de ovos de codorna, 09 brasas de carvão, água de rosas. Depois de tudo arrumado na panela, completa-se com azeite de oliva e acende uma mecha, deixando por 09 dias aos pés de Oyá, despacha num bambuzal. Essa lamparina é para obter uma graça especial.

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*Todos os créditos dessa postagem são de Jadir Nery Okanrandi a quem eu presto reverência por toda a confiança, que mesmo sem me conhecer, depositou em minha pessoa. Por tudo que tem me ensinado, muito obrigado!

Lamparinas - parte II


Lamparina para Omolú:
Em meia cabaça devidamente limpa, coloca-se: azeite de dendê, mel de abelhas, vinho tinto seco, azeite de amêndoa, milho torrado e milho de pipoca. Completa-se com azeite de oliva, acende uma mecha que deve ser renovada até que a pessoa melhore. Depois de obtida a graça, enterra-se a cabaça dentro do cemitério.

Lamparina para Ewá:
(Defender-se dos inimigos)
Uma panela de barro, 11 grãos de feijão fradinho, 11 grãos de milho vermelho, açúcar mascavo, azeite de dendê, água de rosas. Completa-se com azeite de oliva e acende-se uma mecha por 11 dias aos pés de Ewá. Despacha-se nos pés de um flamboyant.

Lamparina para Iemanjá:
Uma panela de barro, um pouco de água de flor de laranjeira, um cálice de licor de menta, um copo de água do mar, um pouco de mel de abelhas, um pouco de melado, 04 agulhas de costura, azeite de girassol. Coloca-se tudo dentro da panela, completa com azeite de girassol e acende-se uma mecha por 07 dias. Despacha-se no mar.

Lamparina para Xangô:
Uma melancia, água de rio, 06 pimentas da costa, azeite de oliva, 06 colheres de azeite de dendê, 06 colheres de azeite de coco, 06 pavios de algodão. Abre a melancia, retira a polpa de seu interior e introduz os ingredientes, começando pela água e deixando o azeite de oliva por último, de forma que fique cheia até em cima. Coloca os pavios e deixa aos pés de Xangô até que se queime todo os pavios. A polpa retirada da melancia é esfregada no corpo da pessoa que, depois disso, toma um banho de água limpa.

Lamparina para Obatalá:
Num copo de cristal grosso, coloca-se quatro dedos de água de flor de laranjeira, 10 gotas de baunilha e azeite de oliva. Acende-se um pavio dentro do copo e deixa que queime todo o azeite. Não se despacha o copo, apenas a água do fundo é despejada num gramado.

Lamparina para Nanã:
Metade de uma cabaça bem limpa, 13 moedas pequenas, 13 grãos de milho de pipoca que não tenham estourado ao se fazer pipocas para Obaluaê, 13 pedacinhos de coco seco, 13 sementes de anis estrelado, azeite de dendê, melado de cana, um pouco de lama do fundo de um rio, azeite de oliva. Escreve-se num papel o que se deseja de Nanã. Coloca o papel dentro da cabaça e os demais ingredientes por cima. Completa-se com azeite de oliva, acende-se uma mecha e deixa nos pés de Nanã por 13 dias. Despacha-se nas águas de um rio.

Lamparina para Obá:
(Desfazer um malefício)

Numa panela de barro, coloca-se: 15 sementes de abóbora, um pouco de farinha de milho vermelho torrado, 15 agulhas de costura, 15 pimentas da costa, 15 colheres de vinagre, 15 colheres de suco de limão, uáji, osun, 15 búzios pequenos e azeite de oliva. Acende-se uma mecha e deixa-se por 15 dias nos pés de Obá. Despacha-se no cemitério.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Odús

Começo esse post citando uma frase que define bem o que são Odús para mim:

"Não me peça para dar a única coisa que eu tenho para vender"

Definindo Odú:

Etimologicamente, a palavra Odú vem da língua Iorubá e significa DESTINO.

Cada ser humano possui o seu destino que se assemelha a de outros, mas sempre com particularidades. Odú é também definido como Signos de Ifá. São presságios, destinos, predestinação.

Cada um de nós é regido por um Odú ou Omo Odu e cada Odú é composto de uma infinidade de poemas, relatando a história da criação e o papel que os orixás e uma série de outras espiritualidades exerceram nessa história primordial.

O conjunto dos Odús forma, então, um texto canônico sobre o qual se sustenta a tradição de Ifá.


Para o estudo dos Odús, são usados métodos oraculares, como o Merindilogun, o Opelê-Ifá, o Ikin, entre outros.

Abaixo, apresento-lhes os 16 Odús:

:
NOME DO ODÚ:
ORIXÁS REGENTES:
01
Okáran
Exú, Xangô e Egun
02
Ejiokô
Ogun, Ibeji e Exú
03
Etaogundá
Ogun, Exú e Xangô
04
Iorossun
Iemanjá, Ogun e Egun
05
Oxê
Oxun e Yámi
06
Obará
Xangô, Exú, Oxóssi e Logun
07
Odí
Oxóssi, Obaluaê e Omolú
08
Ejionilê
Oxoguiã, Oxóssi e Airá
09
Ossá
Oyá, Iemanjá e Yámi
10
Ejiofun
Oxalufã, Oduduá e Airá
11
Owarin
Egungun, Exú, Xangô e Ikú
12
Ejilaxebóra
Xangô, Orô e Ikú
13
Ejiologbon
Nanã, Oxalufã e Omolú
14
Iká
Oxumarê e Ossãe
15
Obeogundá
Obá, Ewá e Ogun
16
Alafiá
Oxalá e Orumilá 

Axé Ô

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

INICIAÇÃO

Hoje falaremos de INICIAÇÃO.
A iniciação é um elemento que determina a união entre o grupo que forma a hierarquia de um terreiro, pois todos passarão pelo mesmo ritual e conhecerão todas as dificuldades a serem enfrentadas.

A primeira etapa da iniciação é o "bolar" para o santo. Esse é um forte sinal de que há necessidade de iniciação. Acontece geralmente quando a pessoa participa de um xirê (toque) e o Orixá acaba se manifestando em estado bruto. É como desmaiar, mas o Orixá está ali - manifestado. 

A pessoa é então levada para o Roncó para ser trazida de volta do transe. Se decidir se iniciar, caberá ao sacerdote consultar o jogo de búzios para determinar o Orixá - dono da cabeça - e todo o material a ser utilizado na feitura.

CERIMÔNIA DO BORÍ:
É dar comida a Cabeça, alimentar o Orí.
O Orixá agora tem o direito de "tomar" aquela cabeça porque foi permitido pelo novo adepto. Neste momento dá-se início a uma união definitiva, pelo resto da vida. 

Nessa obrigação são consagrados objetos, animais e símbolos de acordo com o Orixá de cabeça de cada filho (a). A reclusão do Borí dura de três a sete dias em média, dependendo da cada casa e de cada culto.

O ORÔ:
É o assentamento propriamente dito do Orixá.
É o dia em que o Abian raspará a cabeça e fará os cortes rituais em seu corpo que propiciarão a manifestação do Orixá. 

Em seu corpo serão feitas as pinturas rituais com os pós Waji, Ossum e Efun e ele/ela, receberá também o fio de contas (Kelê) no pescoço que é a marca final da cabeça, que recebeu o sacrifício. 
Essa marca torna-se sagrada pelo resto da vida!
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sábado, 14 de janeiro de 2017

Voltando...



Depois de um longo período sem postar, estou de volta.
Nesse começo, nesse retorno, vou precisar de vcs, seguidores, leitores, povo do santos, curiosos....quero sugestões.
O que devo falar?
O que vcs acham importante para ser discutido?
O que NÃO é mais necessário falar?
Estou esperando vocês.
Abraço fraterno a todas e todos.
Lígia Moura
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sociedade Egunguns



Os negros iorubanos originários da Nigéria trouxeram para o Brasil o culto dos seus ancestrais chamados Eguns ou Egunguns. Em Itaparica (BA), duas sociedades perpetuam essa tradição religiosa. Esses iorubanos não apenas adoram e cultuam suas divindades, mas também seus ancestrais, principalmente os masculinos.

A morte não é o ponto final da vida para o iorubano, pois ele acredita na reencarnação (àtúnwa), a pessoa renasce no mesmo seio familiar ao qual pertencia revivendo em um dos seus descendentes.

Orô é uma divindade sendo considerado o representante geral dos antepassados masculinos e cultuado somente por homens. Tanto Iami quanto Orô são manifestações de culto aos mortos. São invisíveis e representam à coletividade, mas o poder de Iami é maior e, portanto, mais controlado, inclusive pela Sociedade Orô.

FINALIDADE DA SOCIEDADE EGUNGUN
As "Sociedades Egungum" têm como finalidade celebrar ritos a homens que foram figuras destacadas em suas sociedades quando vivos, para que eles continuem presentes entre seus descendentes de forma privilegiada. Esses mortos surgem de forma visível, mas camuflada, a verdadeira resposta religiosa da vida pós-morte, denominada Egum ou Egungum.

Somente os mortos do sexo masculino fazem aparições, pois só os homens possuem a individualidade, às mulheres é negado este privilégio, assim como o de participar diretamente do culto.

No Brasil existem duas sociedades de Egungum, cujo tronco comum remonta ao tempo da escravatura: Ilê Agboulá, a mais antiga, em Ponta de Areia, e uma mais recente e ramificação da primeira, o Ilê Oyá, ambas em Itaparica, Bahia.

O Egum é a morte que volta à terra em forma espiritual e visível aos olhos dos vivos. Ele "nasce" através de ritos que sua comunidade elabora e pelas mãos dos Ojé (sacerdotes) munidos de um instrumento invocatório, um bastão chamado Ixã, que quando tocado na terra por três vezes e acompanhado de palavras e gestos rituais, faz com que a "morte se torne vida" e o Egungum ancestral individualizado está de novo "vivo”.

A aparição dos Eguns é cercada de total mistério, diferente do culto aos Orixás. 

APRESENTAÇÃO DO EGUN
Apresenta-se com uma forma corporal humana totalmente recoberta por uma roupa de tiras multicoloridas, que caem da parte superior da cabeça formando uma grande massa de panos, da qual não se vê nenhum vestígio do que é ou de quem está sob a roupa. Fala com uma voz gutural inumana, rouca, ou às vezes aguda metálica e estridente - característica de Egum, chamada de séègí ou sé, e que está relacionada com a voz do macaco marrom, chamado Ijimerê na Nigéria.

As tradições religiosas dizem que sob a roupa está somente a energia do ancestral; outras correntes já afirmam estar sob os panos algum mariwo (iniciado no culto de Egum) sob transe mediúnico. Pelo sim ou pelo não, Egum está entre os vivos, e não se pode negar sua presença.

A ROUPA DO EGUN

A roupa do Egum - chamada de Eku na Nigéria ou Opá na Bahia - é altamente sacra ou sacrossanta e por dogma, nenhum humano pode tocá-la.

O Egum é a materialização da morte sob as tiras de pano, e o contato, ainda que um simples esbarrão nessas tiras seja prejudicial e mesmo os mais qualificados sacerdotes - como os Ojé Atokun, que invocam, guiam e zelam por um ou mais Eguns - desempenham todas essas atribuições substituindo as mãos pelo Ixã.

Os Egum-Agbá (ancião), também chamados de Babá-Egum (pai), são Eguns que já tiveram os seus ritos completos e permitem, por isso, que suas roupas sejam mais completas e suas vozes sejam liberadas para que eles possam conversar com os vivos.

Os Apaaraká são Eguns mudos e suas roupas são as mais simples: não têm tiras e parece um quadro de pano com duas telas, uma na frente e outra atrás. Esses Eguns ainda estão em processo de elaboração para alcançar o status de Babá; são traquinos e imprevisíveis, assustam e causam terror ao povo.

O Eku dos Babás é dividido em três partes:
1. O Abalá, que é uma armação quadrada ou redonda, como se fosse um chapéu que cobre totalmente a extremidade superior do Babá e da qual caem várias tiras de panos coloridas, formando uma espécie de franjas ao seu redor;

2. O Kafô, que uma túnica de mangas que acabam em luvas e pernas que acaba igualmente em sapatos;

3. O Banté, que é uma tira de pano especial presa no kafô e individualmente decorada e que identifica o Babá. O banté, que foi previamente preparado e impregnado de axé (força, poder, energia transmissível e acumulável), é usado pelo Babá quando está falando e abençoando os fiéis. Ele sacode na direção da pessoa e esta faz gestos com as mãos que simulam o ato de pegar algo, no caso o axé, e incorporá-lo. Ao contrário do toque na roupa, este ato é altamente benéfico.


Na Nigéria, os Agbá-Egum portam o mesmo tipo de roupa, mas com alguns apetrechos adicionais: uns usam sobre o Alabá máscaras esculpidas em madeira chamadas Erê Egungum; outros, entre os Alabá e o Kafô, usam peles de animais. Alguns Babás carregam na mão o Opá Iku e às vezes, o Ixã. Nestes casos, a ira dos Babás é representada por esses instrumentos litúrgicos.

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Ainda sobre Eguns ...




QUALIFICAÇÕES DE EGUNS
Existem várias qualificações de Egum, como Babá e Apaaraká, conforme sus ritos, e entre os Agbá, conforme suas roupas, paramentos e maneira de se comportarem. As classificações, na verdade, são extensas. 

Nas festas de Egungum, o salão público não tem janelas, e, logo após os fiéis entrarem, a porta principal é fechada e somente aberta no final da cerimônia. Os Eguns entram no salão através de uma porta secundária e exclusiva, os ancestrais são invocados e eles rondam nos espaços do terreiro. Vários Amuxã (iniciados que portam o Ixã) funcionam como guardas para evitar que algum Babá saia do espaço delimitado e invadam as redondezas não protegidas.

Os Eguns são invocados numa outra construção sacra, chamada de Ilê Awô (casa do segredo), na Bahia, e Igbo Igbalé (bosque da floresta), na Nigéria.

DIVISÃO DO ILÊ AWO
O Ilê Awo é dividido em uma ante-sala, onde somente os Ojé podem entrar, e o Lèsànyin ou Ojê Agbá entram. Balé é o local onde estão os Idiegungum, os assentamentos e o Ojubô-Babá, que é um buraco feito na terra, rodeado por vários Ixã, os quais de pé, delimitam o local.

Nos Ojubô são colocadas oferendas para o Egum a ser cultuado. No Ilê Awô também está o assentamento da divindade Oyá na qualidade de Igbalé - a única divindade feminina venerada e cultuada, pelos adeptos e pelos Eguns. No balé os Ojê Atokun vão invocar o Egum escolhido no assentamento e é neste local que o Awô (segredo) - o poder e o axé de Egum - nasce através do conjunto Ojê-Ixã/Idi-Ojubô. A roupa é preenchida e Egum se torna visível aos olhos humanos.

Após saírem do Ilê Awô, os Eguns são conduzidos pelos Amuxã até a porta secundária do salão, entrando no local onde os fiéis os esperam, causando espanto e admiração, pois eles ali chegaram levados pelas vozes dos Ojê, pelo som dos Amuxã, brandindo os Ixã pelo chão e aos gritos de saudação e repiques dos tambores dos Alabês. O clima é realmente perfeito!

ESPAÇO FÍSICO DO ILÊ AWO
O espaço físico do salão é dividido entre sacro e profano.
O espaço sacro é a parte onde estão os tambores, os alabês e cadeiras nas quais os Eguns, após dançarem e cantarem descansam na companhia dos outros, sentados ou andando, mas sempre unidos com sua comunidade. Porque este é o objetivo do culto: unir os vivos com os mortos. Nesta parte, mulheres não podem entrar pois o culto é restrito aos homens.

Mas existem raras e privilegiadas mulheres que são exceção, como se fosse a própria Oyá; elas são iniciadas no culto dos orixás e possuem Oiê (posto e cargo hierárquico) no culto de Egum - estas posições causam inveja à comunidade feminina. Estas mulheres zelam pelo culto, confeccionando roupas, mantendo a ordem no salão, respondendo aos cânticos ou puxando alguns, que só elas têm o direito de cantar para os Babás. 

Este espaço sagrado é o mundo do Egum nos momentos de encontro com seus descendentes.

O espaço profano é dividido em dois lados: à esquerda ficam as mulheres e crianças e à direita, os homens. Após Babá entrar no salão, ele começa a cantar seus cânticos preferidos, porque cada Egum em vida pertencia a um determinado Orixá e esta característica é mantida pelo Egum. Se alguém em vida pertencia a Xangô, quando morto e vindo com Egum, ele terá as características de Xangô, 

O Babá também dançará e cantará suas próprias músicas. Ele conversará com os fiéis, falará em um iorubá arcaico e seu Atokun funcionará como tradutor. Babá-Egum começará perguntando pelos seus fiéis mais frequentes e pelos Oiê femininos depois, pelos outros e finalmente será apresentado às pessoas que ali chegaram pela primeira vez.

Finalizando a conversa com os fiéis, Babá-Egum parte, mas continuará protegendo e abençoando os que foram vê-lo.

Esta é uma breve descrição de Egungum, de uma festa e de sua sociedade, não detalhada para que se compreenda que a morte e a vida através das ancestralidade cultuada nessas comunidades como um reflexo da sobrevivência direta, cultural e religiosa dos iorubanos da Nigéria.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Abikús


Um dos maiores mistérios existentes no culto aos Orixás, é o que envolve os Abíkús, espíritos infantis que, conforme determina o próprio nome, nascem para morrer. Talvez porque envolva espíritos infantis ou por falta de informações exatas sobre o assunto e por conta disso, muitas crenças são criadas e quase sempre absurdas.

O fato é que os Abikus:
NÃO são uma maldição;
NÃO são espíritos maléficos;
NÃO matam a própria mãe;
NÃO tem poderes sobrenaturais;
NÃO são bruxos;
NÃO incorporam;
NÃO podem receber cargos, muito embora sejam bastante respeitados e acredita-se que nenhum malefício possa atingi-los, o que também não é verdade.

É fato também, que um filho representa um grande tesouro. E para o Africano não é diferente. Na África, mulheres estéreis são consideradas como verdadeiras inutilidades.
Isso pode ser comprovado no Itan do Odú Ogbe-Hunle:

Omo l'okun
Omo ni de
Omo ni jingindinringin
A mu se yi, mú s'orun Ara eni.

TRADUÇÃO:
Um filho é como contas de coral vermelho.
Um filho é como o cobre.
Um filho é como alegria inextinguível.
Uma honra apresentável, que nos representará depois da morte.





Os Abikús são pessoas normais e como tal devem ser tratados porque é isso que são: NORMAIS com características diferentes dos demais tidos como “povo do santo”. Na iniciação sua cabeça é protegida por uma meia cabaça, pois segundo se acredita, sobre o orí de um Abíkú, não pode correr sangue.

O conceito de Abíkú deve ser reavaliado por nossos sacerdotes, já que este fenômeno ocorre em todas as partes do mundo e é necessário que nossos líderes religiosos não só o conheçam e compreendam profundamente, como possuam também, condições de solucioná-lo, sem mistificações, através de uma prática ritualística simples, mas muito efetiva.

É necessário, acima de tudo, que, uma vez contata a presença de um espírito Abíkú, os pais e as mães sejam informados de forma correta, sem medo ou repulsa e sem nenhuma conotação de perversão ou depravação espiritual, o que, sem dúvida, poderá ser obtido com muita fé e devoção aos Orixás.

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Lenda relacionada aos Abikús


Segundo a lenda, os Abikús vieram à terra, pela primeira vez, na localidade denominada Awaiye, trazidos por Alawaiye, rei de Awaiye e seu chefe no Orun. O grupo era formado por 280 espíritos que, parando no portal do céu, fizeram diversos pactos, condicionando seu retorno a diferentes situações, que variavam de acordo com a escolha de cada um. Desta forma, alguns estabeleceram a data de sua morte para depois que vissem, pela primeira vez, o rosto de suas mães; outros, para quando completassem sete dias de nascidos; outros ainda, para quando começassem a andar; alguns, para quando ganhassem um irmão mais novo; outros, para quando se casassem ou construíssem uma casa. Aqueles que nascessem comprometiam-se a não aceitar o amor de seus pais e, todos os presentes e agrados recebidos, seriam inúteis para retê-los na Terra, ao passo que alguns, se comprometeram, simplesmente, a provocarem seus próprios abortos, não chegando sequer a nascer. Estabeleceram ainda que, se seus pais adivinhassem seus rituais, roupas e oferendas, e, se em tempo hábil os oferecessem, concordariam em permanecer neste mundo.

Determinaram ainda entre si um ritual no qual, roupas, chapéus e turbantes tingidos de osun, com valor simbólico de 1.400 cawrís, deveriam ser pendurados nas árvores de um bosque especialmente consagrado para seu culto. Folhas sagradas deveriam ser friccionadas em seus corpinhos já tingidos de osun, shaworos seriam colocados em seus tornozelos, pequenas incisões seriam feitas em seus corpos, e, através delas, pós mágicos de diversas folhas, seriam inseridos como proteção. Com os mesmos pós, seriam confeccionados amuletos de couro, denominados ondê, que deveriam ser presos às suas cinturas. Alguns deles deveriam levar nos tornozelos, argolas e correntes de ferro, para evitar que fugissem para o Orun e, suas oferendas, conforme determinariam os Itan Ifá, seriam compostas de cabras, pombos, galos, doces, diversos tipos de cereais, bebidas e guizos, que deveriam ser entregues no bosque sagrado, soltas nas águas de um rio, ou enterradas em suas margens. Somente assim, concordariam em permanecer sobre a Terra.

Apesar disto, se Iyajanjasa ou Oloiko insistissem em levar alguns deles de volta para o Orun, seus corpos sem vida deveriam ser marcados com escarificações, queimaduras ou mutilações, para que seus colegas do Orun, não os reconhecendo, se negassem a aceitá-los no egbe. As mesmas marcas, reaparecendo nos corpos que tomassem para renascer, serviriam para que pudessem ser identificados e, imediatamente, submetidos aos procedimentos mágicos que fariam com que prolongassem suas vidas.

Segundo as tradições, o Ipori ao atingir elevado estágio de evolução, costuma reunir-se em grupos, aguardando em copas de determinadas árvores consideradas sagradas, situadas em trilhas existentes em alguns bosques. A passagem de uma mulher de "corpo aberto", ou seja, em fase de menstruação, é por ele esperada para que, através dessa "abertura", possa estabelecer-se em seu interior, aguardando ali, que ocorra a fecundação, quando então, aloja-se no embrião, dando início a uma nova encarnação que poderá ser interrompida antes do total desenvolvimento do feto, ou num período de nove anos após o nascimento, conforme seja o seu plano de mais rapidamente processar sua evolução.

A ocorrência de abortos sucessivos, ou a morte dos filhos ainda pequenos, configuram-se como sintomas da presença de um Abíkú e, contatada essa presença, a mulher afetada deve submeter-se a um complexo tratamento espiritual, tendo que reunir-se a um grupo denominado Egbe Obá, onde é praticado um culto específico a Abíkú.

Como parte integrante do Egbe Obá, a mulher passa por uma série de procedimentos ritualísticos que visam garantir o nascimento de seu próximo filho, não por intermédio da expulsão do Abíkú alojado em seu corpo, mas através de sua concordância do mesmo em nascer e continuar vivendo no corpo em gestação, por um período correspondente à média normal de vida humana.

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Nação Abikú


O Abíkú existe em quase toda a África negra, variando apenas na forma de tratamento deste fenômeno.
Vários povos mantêm a mesma crença, embora dêem a eles, nomes diferentes. Os IGBOS os chamam de ogbanje, eze-nwany, agwu ou ainda, iyi-uwa-ogbanje. Entre os NUPE, são conhecidos como kuchi ou gayakpeama. Os FANTI os conhecem pelo nome de kossamah, os AKAN pelo nome de awomawu, e os HAUSSA chamam-nos de danwabi ou kyauta.

Também entre os povos BANTU, originários do Sul da África, encontramos os uafú zá kuíza, cujos funUm Itan de Ifá revela, por intermédio do Odu Irosun Meji, um sacrifício específico para garantir o nascimento de uma criança.

Os Abíkú são na verdade, espíritos que provocam a morte das crianças em que estejam encarnados, ou seja, que provocam a própria morte. A palavra de origem Yorubá e pode ser literalmente traduzida como: "Nós nascemos para morrer".

A ação do Abíkú encarnando-se sucessivas vezes em crianças geradas por uma mesma mulher e provocando sua morte durante a fase de gestação, ou logo após o nascimento, mas sempre antes dos nove anos de idade, é tida e havida como uma verdadeira maldição.

Sabemos que o espírito, já em estágio de adiantada evolução, buscando acelerar ainda mais o processo, provoca esse tipo de fenômeno que, se do ponto de vista espiritual pode ser considerado benéfico, do ponto de vista material é visto como uma desgraça que se abate sobre uma família, determinando dor e luto constantes.

Os espíritos Abíkús formam um grupo denominado Egbe Orun Abíkú, que habita no mundo paralelo que nos rodeia, o Orun, morada dos deuses e dos antepassados.

No Orun, termo que pode ser corretamente traduzido para céu, este grupo de espíritos dividem-se em categorias, de acordo com o sexo, sendo que os pertencentes ao sexo masculino são chefiados por Oloiko (Chefe do grupo) e os de sexo feminino, por Iyajanjasa (A Mãe que bate e corre). Na sua vinda do Orun para o aiye (terra), os espíritos, também conhecidos como Emere, estabelecem um pacto com Onibode Orun, o guardião dos portais do Orun, condicionando sua permanência, no nosso mundo, a determinadas exigências.

Através do pacto formalizado, alguns destes espíritos determina, simplesmente, não nascer, enquanto outros, determinados a voltar logo após seu nascimento, morrem subitamente, quer seja por acidente, quer seja por doença, assim que rompa seu primeiro dente.


Todos os Abíkús são considerados espíritos infantis e possuem companheiros ou amiguinhos mais chegados, com os quais costumam brincar no Orun. Logo que uma destas crianças nasce, seu par começa a interferir na sua vida terrena, aparecendo-lhe em sonhos ou atormentando-o de diversas formas, para que não se esqueça do compromisso assumido, e que retorne, o mais rapidamente possível, ao seu convívio.

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Tratamento Espiritual para os Abikús


Um babalawo, especialista no trato com, indica o ebó que irá garantir o nascimento com vida do próximo filho da mulher em questão, mantendo-o vivo, retendo-o sobre a Terra e rompendo, definitivamente, sua ligação com o Orun.

Iniciado o tratamento espiritual, a mulher tem o corpo, principalmente o abdome, esfregado com folhas sagradas, toma banhos e chás das mesmas folhas e passa a cuidar de uma entidade feminina chamada Egbe Eleriko, que atormenta as crianças durante o sono, produzindo marcas e ferimentos superficiais em seus corpos.

Um assentamento de Egbe Eleriko é feito em sua casa, onde, anualmente, serão oferecidos sacrifícios de animais, com toques, cânticos e danças ritualística. Esta entidade tem que ser cultuada permanentemente e, a cada cinco dias, cabaças com oferendas lhe é oferecida num rio.
Dentro destas cabaças são colocados ovos, obís, favas bejerekun, akasá, bananas, doces, inhame, acarajés, cana-de-açúcar e penas ekodidé, tudo em número de seis. A cabaça é fechada e, depois de colocada dentro de um saco, é entregue nas águas de um rio, acompanhada das seguintes rezas:

1 - Egbe, afável mãe, apoio suficiente para os que a cultuam.
Aquela que usa roupas de veludo e que, elegante, come cana-de-açúcar nos caminhos de Oyó.
Aquela que gasta muito dinheiro comprando azeite de dendê.
A que está sempre fresca e que possui muito óleo, que utiliza para realizar milagres.
Aquela que tem dinheiro para luxo, a linda.
A que sucumbe ao seu marido, como a uma pesada clava de ferro.
Aquela que possui dinheiro para comprar, mesmo as coisas mais caras.

2 - Por favor, permita-me usar um ojá.
Por favor, permita-me possuir um ojá.
Um ojá é o que usamos para prender uma criança às nossas costas.
Eu posso, a cada cinco dias, cultuar Egbe.
Mãe Egbe, que mora entre as plantas.
Dê-me meus próprios filhos.
Eu posso cultuá-la a cada cinco dias.

Apesar de atormentar as crianças, Egbe Eleriku tem o poder de dar filhos e fortuna às mulheres que a cultuam e nem todas as crianças são por ela perseguidas. Um oriki de Egbe Eleriko, recolhido em Ibadan, demonstra a ligação acima referida, e serve como uma súplica feita pelas mulheres que, sob sua proteção, desejam filhos sadios e livres da praga.

Mãe proteja-me e eu irei ao rio.
Não permita a abíku entrar em minha casa.
Mãe proteja-me, eu irei ao rio.
Não permita que uma criança maldita venha à minha casa.
Mãe proteja-me, eu irei ao rio.
Não permita que uma criança estúpida siga-me até minha casa.
Olugbon morreu e deixou filhos no mundo.
Aresá morreu e deixou descendência.
Olukoyi morreu e deixou descendência.
Não permita que eu morra sem ter tido filhos.
Eu não posso morrer de mãos vazias, sem descendentes
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Um procedimento muito usado para constatar a presença do Abíkú, no caso de falecimento de uma criança de menos de nove anos, faz parte de um ritual durante o qual, o cadáver do pequenino, depois de lavado com infusões de ervas sagradas, é marcado com cortes superficiais em diversas partes do corpo, feitos com afiadas lâminas de aço. Através destas escarificações são introduzidos alguns tipos de pós obtidos da moagem de elementos naturais, considerados mágicos. Cortes mais profundos são feitos no alto da cabeça e o lóbo de uma das orelhas é extirpado. Um guizo de ferro fornecido pelo Egbe Obá é atado ao tornozelo do cadáver que, só então, receberá sepultura.

A próxima criança gerada pela mãe do falecido, se apresentar uma das marcas feitas no cadáver de seu irmão, se possuir lóbo duplo ou bipartido numa das orelhas, ou ainda, se possuir um sexto dedo num dos pés ou mãos, estará caracterizando a presença do Abíkú, devendo ser imediatamente submetida aos rituais que lhe preservarão a vida e que, da mesma forma que os procedimentos relativos ao cadáver de seu falecido irmão, só podem ser ministrados por um sacerdote do culto de Ifá, Babalawo consagrado e especializado neste tipo de ritual.

Assegurado o nascimento da criança, e tendo esta efetivamente nascida com vida, deverá então ser submetida aos rituais propiciatórios, para que o espírito permaneça naquele corpo, com a garantia de que será aquela a sua última encarnação.

Um ebó será preparado, com um pedaço de tronco de bananeira vestido com roupas e gorros tingidos de osun e bordados de búzios e guizos. Pendura-se tudo nos galhos de uma árvore e, no chão, arria-se, ao redor do tronco, pratos ou alguidares de barro contendo inhame, acarajé, ekurú, akasá, canjica, doces, frutas, bebidas, folhas ritualísticas, tudo bem coberto com mel de abelhas. Uma cabra, um pombo e um galo são sacrificados e arriados no local, onde permanecerão por algum tempo. Depois, embrulham-se os corpos dos animais sacrificados num pano branco, cobre-se com bastante pó de efun, amarra-se e enterra-se nas margens de um rio, ou despacha-se nas águas, de acordo com a orientação obtida através do oráculo.

Na confecção do ebó, não são utilizadas rezas ou cânticos, sendo exigida, isto sim, a presença dos pais do Abíkú, que deverão saber o objetivo do ebó. As mesmas folhas oferecidas no sacrifício serão utilizadas em banhos e na confecção de pós mágicos que serão esfregados nas incisões do Abíkú e na preparação do amuleto ondê, que deverá acompanhá-lo pelo resto da vida. As folhas têm que ser consagradas antes de sua utilização e, para isso, possuem ofós específicos, que ressaltam suas qualidades e funções.

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